Assessoria confidencial · Brasil

Fusões e aquisições no ensino superior: o que continua depois da assinatura

Quando um grupo educacional adquire uma IES, a due diligence financeira pergunta quanto ela vale e a regulatória pergunta se os atos e indicadores do MEC estão em ordem. Meu trabalho responde a uma terceira pergunta, que costuma decidir se o valor pago se sustenta: que projeto educativo, que equipe docente e que relação com os estudantes e com a região estão sendo incorporados — e o que é preciso para que continuem a gerar valor depois da integração.

O que estamos realmente comprando quando compramos uma faculdade, um centro universitário ou uma universidade?
A pergunta institucional que esta linha responde

Um setor que se avalia por múltiplos, mas se sustenta em pessoas

O ensino superior privado concentra a grande maioria dos estudantes de graduação no Brasil: segundo o Censo da Educação Superior 2023 do Inep, as IES privadas respondem por 79,3% das matrículas. É também um dos mercados de consolidação educacional mais ativos do mundo. Um exemplo público, que cito apenas como referência de escala e no qual não tive nenhuma participação: em 2020, segundo a imprensa, a Ânima Educação acordou a compra dos ativos da Laureate no Brasil — 11 instituições e mais de 270 mil alunos — por R$ 4,4 bilhões, cerca de 10,7 vezes o EBITDA ajustado.

Operações assim são analisadas com a linguagem do mercado de capitais: EBITDA, sinergias, base de alunos, vagas de medicina. Essa linguagem é necessária, mas deixa de fora a pergunta que decide se o valor se mantém: o projeto educativo que gera as matrículas continuará a existir depois da integração?

Fontes: Inep, Censo da Educação Superior 2023 (apresentação, via Poder360) · Exame (nov. 2020)

Um exemplo de como uma decisão de sinergia afeta o sistema

Depois de uma aquisição, é comum unificar matrizes curriculares entre campi e instituições para ganhar escala. Do ponto de vista financeiro, a decisão faz sentido. Do ponto de vista do sistema, pode ter efeitos que não aparecem na planilha:

  • Projetos integradores, estágios e parcerias com empresas da região que davam identidade à IES adquirida podem perder espaço na nova matriz.
  • A coordenação de curso e o trabalho conjunto dos docentes tendem a se reduzir quando o currículo passa a ser desenhado longe do campus.
  • Os estudantes podem perceber que a experiência que os levou a escolher a instituição mudou — e isso pode aparecer depois na evasão e nos indicadores de qualidade.

Due diligence acadêmica para quem compra

Para grupos educacionais e fundos que avaliam a aquisição de uma IES, analiso o que a due diligence financeira não mede, em complemento à análise regulatória (atos do MEC e indicadores como IGC, CPC e Enade), que não é a minha especialidade e que fica a cargo de especialistas:

  • Solidez do projeto educativo e qualidade real da aprendizagem, para além dos indicadores de marketing.
  • Coerência entre o propósito declarado, o modelo educativo e a experiência real dos estudantes.
  • Corpo docente e cultura institucional: dependência de pessoas-chave, capacidade docente e abertura à mudança.
  • Capacidade de transformação: o que pode evoluir, em que ritmo e com que riscos para a identidade e para a relação com a região.

Para mantenedoras que pensam em vender

Vender uma IES é decidir quem terá capacidade de orientar o seu futuro. Preservar não basta como critério: uma instituição pode manter o nome e o discurso enquanto perde qualidade educacional, ou mudar profundamente e fortalecer o seu propósito.

Acompanho mantenedoras de forma confidencial para responder, antes do comprador, a quatro perguntas:

  • O que estamos realmente transferindo? Um propósito, capacidades, relações, uma cultura e uma forma de aprender.
  • O que precisa de continuidade e o que precisa de transformação? Distinguir o essencial das práticas herdadas.
  • Que comprador pode desenvolver esse futuro? Confrontar a estratégia dele com as necessidades reais do projeto.
  • Como será construída a próxima etapa? Governança, participação da comunidade acadêmica, capacidades docentes e acompanhamento da aprendizagem.

Integração: onde o valor se ganha ou se perde

Boa parte do valor de uma operação educacional se ganha ou se perde depois da assinatura. Uma integração que ignora a cultura docente, a identidade do projeto ou a confiança dos estudantes tende a corroer exatamente aquilo pelo qual se pagou.

Fora do Brasil, já acompanhei processos reais de incorporação de instituições a redes educacionais, trabalhando a dimensão que decide o resultado: raízes históricas, identidade, reconhecimento mútuo, propósito compartilhado e integração de modelos educacionais. Docentes, coordenadores e estudantes não são apenas destinatários da comunicação: precisam de escuta, participação e legitimidade no processo.

Como trabalho

Com total confidencialidade e sem conflitos de interesse: meu trabalho se concentra na dimensão educacional, cultural e institucional das operações. Nas dimensões financeira, jurídica e regulatória, trabalho junto com os assessores especializados que cada parte já tem.

Organizo a análise a partir do marco que desenvolvi, a Arquitetura Sistémica da Aprendizagem: propósito, modelo educativo, perfil de egresso, currículo, experiências, avaliação, evidências e impacto, lidos nas camadas institucional, de curso e de sala de aula.

Perguntas frequentes

O que é due diligence acadêmica na compra de uma IES?

É a análise do valor real do projeto educativo antes da operação: a solidez do modelo educacional, a coerência entre o que a instituição declara e o que os estudantes vivem, o corpo docente e a cultura institucional, e a capacidade de se transformar sem perder a identidade. Complementa a due diligence financeira, jurídica e regulatória.

Você faz a análise regulatória do MEC?

Não. Não sou especialista em regulação do MEC: a análise de atos regulatórios e de indicadores como IGC, CPC e Enade fica a cargo de especialistas. Meu trabalho cobre a dimensão educacional, cultural e institucional, e trabalho junto com esses assessores.

Você assessora compradores ou vendedores?

Ambos: grupos educacionais e fundos que avaliam uma aquisição e mantenedoras que preparam uma venda. Em cada operação trabalho para uma única parte, para evitar conflitos de interesse.

Com que tipo de instituição você trabalha?

Universidades, escolas de negócios, escolas e redes educacionais, na Europa, nas Américas e na África. Estou disponível para projetos com faculdades, centros universitários e universidades no Brasil.

Quando convém envolver você?

O quanto antes. Para quem compra, durante a due diligence e antes da assinatura, quando o que se descobre ainda pode influenciar preço e condições. Para mantenedoras, antes de ir ao mercado. O acompanhamento da integração começa depois da assinatura.

Como é garantida a confidencialidade?

A confidencialidade vale desde a primeira conversa, e posso trabalhar sob acordo de confidencialidade desde o início. Não divulgo clientes nem operações.

Reconhece-se nesta situação?

Conte-me o seu contexto pelo WhatsApp. Respondo pessoalmente e, se fizer sentido, proponho uma conversa de 45 minutos.

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